EFEITO DOS MICRO MINERAIS NA REPRODUÇÃO DE BOVINOS.

by Gushiken on 06/07/2011

Os elementos minerais estão presentes em todas as células e tecidos corporais em uma grande variedade de funções, dentre elas: estrutural, fisiológica, catalítica e reguladora. As concentrações dos elementos essenciais variam de acordo com o tecido animal e de maneira geral são mantidos dentro de limites estreitos para a atividade funcional e integridades dos tecidos a fim de manterem satisfatórios o crescimento, saúde e a produtividade animal.

De uma maneira geral, as forrageiras são pobres em microminerais essenciais para produtividade adequada, deste modo se a demanda por esses elementos não for suprida através de uma correta suplementação mineral, o desempenho dos animais pode ficar comprometido.

As deficiências marginais dos microminerais são de difícil diagnóstico por não apresentarem sinais clínicos característicos, e, geralmente estão associadas às interações com vários outros microminerais.  Na grande maioria, a deficiência se reflete nos índices zootécnicos com baixos índices de produtividade como baixo ganho de peso, alto índice de repetição de cio, abortos.

Deficiências sub-clínicas de minerais vão afetar não somente o desempenho reprodutivo, mas também a imunidade e a produção de leite. Em rebanhos de corte, isso pode significar uma redução no número de bezerros nascidos, um decréscimo no número de bezerros desmamados e uma queda no peso dos bezerros a desmama.

O desempenho reprodutivo de rebanhos bovinos pode ser influenciado pelo desbalanço mineral. Mesmo que de forma indireta, todos os minerais têm alguma relação com as funções reprodutivas em bovinos. No entanto, neste artigo serão abordados aqueles que exercem efeito direto sobre a reprodução de vacas. Dentre eles estão: manganês (Mn) cobre (Cu), iodo (I), zinco (Zn) e selênio (Se).

Tabela  1 – Exigências de minerais para bovinos de corte e leite.

Vacas de cortea

Vacas de leiteb

Minerais

Crescimentoa

Gestante

Lactação

Transição

Lactação

Cobre (ppm)

10

10

10

12 – 18

9 – 16

Iodo (ppm)

0,50

0,50

0,50

0,4 – 0,5

0,34 – 0,88

Manganês (ppm)

20

40

40

16 – 24

12 – 21

Selênio (ppm)

0,10

0,10

0,10

0,3

0,3

Zinco (ppm)

30

30

30

21 – 30

43 -73

FONTE :  aNRC, 1996; bNRC, 2001

Manganês

Estudos observacionais conduzidos nos anos 50 e 60 mostraram que o nível de Mn influencia a fertilidade de rebanhos de leite e de corte.

Nas fêmeas em reprodução há uma concentração altíssima de Manganês nos ovários, principalmente quando elas estão ciclando. Esse tecido é o que mais concentra o Mn porporcionalmente  à sua área. Esse órgão não é uma reserva corporal de Mn, mas o mineral está presente em grande quantidade, pois faz parte do metabolismo das células ovarianas (da granulosa e foliculares). Nos demais tecidos não há variações do Mn, independente da dieta, sendo o esqueleto a maior reserva mobilizável no corpo do animal, com 25% do total corporal.

A principal função do Mn é na reprodução – principalmente de fêmeas bovinas, através do incremento da mitose das células ovarianas da granulosa e folicular (na foliculogênese) e das células luteínicas ovarianas que formam o corpo lúteo. Isso tem reflexo direto na reprodução dos bovinos, pois há o controle do nível de estrógeno e progesterona no sangue. Quando há uma boa mitose das células, o ovário se desenvolve, os folículos crescem normalmente e com a participação de outro mineral, o Selênio se forma o folículo dominante ovulatório, o folículo de Graaf.

Com grande participação do Selênio, ocorre a ovulação e formação do corpo hemorrágico. Esse, em três dias, se torna o corpo lúteo que é secretor da progesterona, que manterá possível a gestação ou preparará o útero para um novo ciclo.

Quanto melhor for a qualidade das células do corpo lúteo, melhor o nível de progesterona no sangue. Essa concentração maior de progesterona plasmática é fundamental para a fisiologia do útero gestante e caso haja um novo ciclo este nível alto estimula uma nova onda de folículos ovulatório de melhor qualidade e mais férteis. Embora o Selênio seja mais apontado na formação de cistos ovarianos, quando há deficiência de Mn ocorre uma degeneração das células da granulosa, que são ricas em mitocôndrias e onde o Mn se concentra mais. Assim, há formação também de cistos ovarianos e abortos por deficiência de progesterona.

Foto 1 – Ovário ciclando.

Cobre

A atividade fisiológica primária do Cu é a sua função como ativador e constituinte enzimático. O Cu é um componente chave do sistema imunológico, e tem um papel básico no metabolismo de ferro e na maturação dos eritrócitos.

Rebanhos que sofrem de uma deficiência marginal de Cu apresentam taxas de crescimento e eficiência alimentar reduzidas. Vacas alimentadas com dietas deficientes em Cu, ou com dietas contendo altos níveis de Molibdênio (Mo) e sulfatos, tem fertilidade e taxas de concepção reduzidas, e maior incidência de retenção de placenta, pois o Mo e S formam um complexo insolúvel com o cobre impedindo sua absorção.

Um dos principais sinais de deficiência de Cobre em ruminantes é a diminuição da fertilidade do rebanho, pois há uma redução na taxa de concepção, devido ao aumento da morte embrionária precoce, alteração do ciclo estral de fêmeas, redução da atividade ovariana em fêmeas jovens e ninfomania geralmente em fêmeas adultas.

Tabela 2. Efeito da suplementação com cobre nas taxas de fertilidade de vacas.

Estas alterações ocorrem devido a mudanças na síntese hormonal dos esteróides, nos ovários. Em  várias  espécies, inclusive a humana, já se identificou claramente uma forte interação entre o estrógeno e o metabolismo do Cobre.

Iodo

O Iodo é um elemento essencial para a síntese dos hormônios da tireóide, que participam na regulação do metabolismo energético.  Os distúrbios causados pela deficiência de Iodo são conhecidos pela humanidade há milhares de anos sendo o principal sinal clínico o hipotireóidismo ou bócio.

Em casos de deficiência subclínicas, onde o bócio não é ainda detectado, o desempenho reprodutivo pode ser comprometido principalmente em fêmeas bovinas alimentadas com dietas marginais em I causando sinais menos expressivos de cio, infertilidade, aumento na taxa de mortalidade embrionária precoce, abortos, nascimento de bezerros fracos ou até mesmo natimortos, aumento na incidência de retenção de placentas, redução na taxa de concepção, inércia uterina e atraso no desenvolvimento fetal.

Vacas em lactação requerem mais Iodo do que as vacas não lactantes, porque cerca de 10% do Iodo ingerido é normalmente excretado no leite. Só que este controle do nível de Iodo no leite, como de todos os microminerais, é genético, e a vaca fornece os microminerais conforme suas possibilidades. Sendo assim, se a dieta da vaca for carente em Iodo, o seu nível no leite cai, podendo praticamente zerar e consequentemente pode prejudicar o desenvolvimento do bezerro.

Nas últimas semanas da gestação ocorre uma grande mobilização de Iodo da mãe para o feto. Essa reserva fetal é importante  nos primeiros dez dias de vida do recém-nascido, para a síntese dos hormônios tireodianos, que são fundamentais para a sobrevivência do bezerro recém-nascido, para estimulá-lo a se levantar o mais rápido possível e mamar o colostro. Também possui atuação através da termorregulação corporal, evitando o choque térmico. Para isso, é necessário que haja Iodo em níveis adequados no feto e na mãe.

Em touros pode ocorrer diminuição da libido e uma produção de sêmen de qualidade baixa, quando há deficiência de Iodo.

Foto 2. Touro com libido cobrindo a vaca.

Zinco

Anormalidades reprodutivas associadas à deficiência de Zn afetam particularmente os touros onde tem papel fundamental na formação da genitália externa e interna, na espermatogênese e na multiplicação celular dos testículos, principalmente das células de Leydig, responsáveis pela produção de testosterona.

Uma redução no tamanho dos testículos pode ser observada em bezerros machos, quando eles são alimentados com dietas deficientes em Zn. Bezerros, aos 8 meses de idade, que receberam níveis adequados de Zinco do nascimento à desmama possuem, em média, o dobro da  circunferência escrotal daqueles bezerros que tiveram uma dieta deficitária, além de uma melhor qualidade no sêmen aos 24 meses de idade.

Microelementos desenvolvem um importante papel no desenvolvimento e maturação dos espermatozóides. O Zinco está diretamente envolvido na distensão e o entrelaçamento das fibras, que formam a membrana que envolve a porção intermediária e a cauda dos espermatozóides. Quando há deficiência de Zinco no epidídimo, estas fibras perdem o entrelaçamento estrutural e a cauda não se alonga e se enrola, ou dobra sobre si mesma. Este defeito é conhecido como “Dag Deffect”, ou cauda fortemente dobrada.

Durante a última década, a compreensão da importância do Se para os bovinos   aumentou significativamente. Provavelmente, nenhum dos minerais envolvidos em nutrição animal sofreu tantas mudanças de conceitos, quanto à sua real importância na nutrição dos animais, quanto o Selênio. Experimentos têm demonstrado que o Se influencia a capacidade dos leucócitos de destruir bactérias. A Vit. E o Se têm funções complementares. Ambos agem como antioxidantes a nível celular.

O Se é um elemento essencial para várias funções do organismo, tais como crescimento, reprodução, resposta imunológica, prevenção de várias doenças e manutenção da integridade das células e dos tecidos.

O Selênio não se encontra facilmente disponível para os bovinos criados a pasto no Brasil, pois como a grande maioria dos nossos solos são altamente lixiviados e com baixo teor de matéria orgânica o Selênio se perde facilmente nestes tipos de solos.

Em touros o Selênio se concentra nos testículos e epidídimo, e neles exerce importantes funções metabólicas, como:

  1. Função antioxidante: na formação (nos testículos) e na maturação espermática (nos epidídimos), pela ação da enzima Glutationa peroxidase, Se-GSH-Px, selenoproteína antioxidante, que é vital para a proteção da membrana lipídica dos espermatozóides, para que não sofra perioxidação pelos radicais livres, que causa a ruptura da membrana e morte do espermatozóide.

  2. Função estrutural: através da selenoproteína PH-GSH-PX, que, além de ação antioxidante, é estrutura fixa da peça intermediária dos espermatozóides, na membrana e nas mitocôndrias.

Quando há deficiência de Se, há uma menor síntese de PH-GSH-Px , e como conseqüência a gametogênese do macho fica comprometida, e os espermatozóides se apresentam com:

  1. Cauda “quebrada”.

  2. Deformações de cabeça.

  3. Deformações da peça intermediária, com até ruptura estrutural.

  4. O seu número, no ejaculado, cai bastante (Oligozooespermia).

  5. Muitos espermatozóides mortos (Necrozooespermia).

  6. Baixa resistência ao TTR (teste de termo de resistência, que mede a longevidade do sêmen).

  7. Baixa eficiência nas taxas de concepção: um número maior de serviços por prenhez.

Em fêmeas o Selênio se concentra nos ovários e exerce importantes funções metabólicas, como:

  1. Função antioxidante: na formação dos ovócitos e na maturação dos folículos que promoveram a ovulação, pela ação da enzima Glutationa peroxidase, que é vital para a proteção da membrana lipídica dos ovócitos,  para que não sofra perioxidação pelos radicais livres, que causa a ruptura da membrana e danos graves irreversíveis. A sua ação evita os cistos ovarianos, que são folículos que não ovularam e causam problemas reprodutivos nas vacas.

Foto 4. Ovário cístico.

Tabela 3. Efeito do selênio e da vitamina E na prevenção de cistos ovarianos.

Tabela 4. Efeito do selênio e da vitamina E na prevenção de retenção de placenta.

O Se possui ação direta no metabolismo hormonal da progesterona, pois é uma selenoproteína que estimula a síntese de prostaglandina E, que protege o corpo lúteo, produtor de progesterona.

A participação do Selênio na fisiologia do útero é vital, pois sua função antioxidante é fundamental para manter o ambiente uterino o mais sadio possível, para a passagem dos espermatozóides, na época do cio, e para receber o embrião e protegê-lo durante toda a gestação.

Deve-se se dar muita atenção à suplementação de vacas gestantes quanto ao nível de Se na dieta. Para que ela não tenha suas reservas corporais de Selênio esgotadas e prejudique sua cria, que também nascerá com deficiência de Se, podendo ser fatal para ela e que não terá esse mineral no leite em níveis adequados.

Os criadores  e técnicos devem ficar preocupados com as conseqüências da deficiência de Se em seus rebanhos, como:

  1. As vacas apresentam uma eficiência reprodutiva baixa.

  2. Repetição de serviços.

  3. Morte embrionária precoce elevada.

  4. Abortos (confirmados, com diagnóstico de doenças da reprodução).

  5. Infecções uterinas.

  6. Mastites.

  7.  Retenção de anexos fetais (RAF).

Alguns técnicos têm carregado demais no fornecimento de Selênio nas dietas de seus animais, e com isso alguns animais, em vez de serem beneficiados pelo Selênio, são intoxicados pelo mesmo, mostrando isso de uma forma discreta, ou mesmo apresentando sinais típicos de selenose.

Considerações finais

A nutrição mineral inadequada é um severo fator limitante da produção de ruminantes em regiões tropicais. As forrageiras normalmente não atendem todos minerais em quantidades necessárias, sendo importante a suplementação mineral dos bovinos a pasto de maneira racional e lógica baseada nas exigências de cada categoria, no diagnóstico de deficiências.

A suplementação mineral de bovinos deve ser realizada como uma ferramenta para aumentar os índices de produtividade animal e não somente para evitar sinais de deficiências.

Referências bibliográficas

CARVALHO, F.A.N., BARBOSA, F.A., McDOWELL, L.R. Nutrição de bovinos a pasto. Belo Horizonte: Papelform, 2003. 438p.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient Requeriments of Beef Cattle.  Washington, D.C. National Academy of Sciences, 7 ed., 242 p., 1996.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient Requirements of Dairy Cattle.  Washington, D.C. National Academy of Sciences, 7 ed., 420 p., 2001.

SMITH, O.B., AKINBAMIJO, O.O. Micronutrients and reproduction in farm animals. Animal Reproduction Science, v. 60-61, p. 549-560, 2000.

SANTOS, J.E.P. Efeitos da nutrição na reprodução. Revisão. Veterinary Medicine Teaching and Research Center, School of Veterinary Medicine, UC-Davis. 1999.

UNDERWOOD, E.J. & SUTTLE, N.F. The Mineral Nutrition of Livestock. CAB International. 1999.

* As fotos são do livro “Nutrição de bovinos a pasto” de autoria do primeiro autor deste artigo.

Fabiano Alvim Barbosa Médico Veterinário Mestre Nutrição Animal Doutorando Produção Animal fabianoalvim@unb.br Guilherme Moreira de Souza Médico Veterinário Mestrando Nutrição Animal- UFMG guisouzavet@yahoo.com.br

3 Responses to “EFEITO DOS MICRO MINERAIS NA REPRODUÇÃO DE BOVINOS.”

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