MÉTODOS DE SUPLEMENTAÇÃO MINERAL DE BOVINOS A PASTO

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Fabiano Alvim Barbosa
Médico Veterinário
Mestre Nutrição Animal
Doutorando Produção Animal
Escola de Veterinária – UFMG
fabianoalvim@unb.br

Décio Souza Graça
Professor Adjunto, D.Sc.
Escola de Veterinária – UFMG

I – INTRODUÇÃO

Em levantamento feito por Tokarnia et al. (2000), mostraram que os primeiros estudos sobre deficiências minerais em bovinos no Brasil se referem à deficiência de fósforo e foram conduzidos na década de 40, em Minas Gerais (Gióvine, 1943; Menicucci, 1943), deficiência de iodo em Minas Gerais (Megale, 1943), deficiência de cobalto em São Paulo (Correa, 1955, 1957), deficiência de cobre no Piauí (Tokarnia et al., 1960). Neste levantamento estes autores mostram que até 1976 já haviam sido diagnosticadas as deficiências de P, Co, Cu, I, distribuídas pelo Brasil (Tabela 1)

Estes mesmos autores mostraram que a partir da década de 70 e 80 novos trabalhos de pesquisas foram feitos e constataram que a deficiência de fósforo é a mais importante em bovinos no Brasil, seguidas de cobre e cobalto. Além destas foram diagnosticadas as deficiências de sódio (Souza et al., 1985), zinco (Souza et al., 1982), selênio (Moraes, 1986; Lucci et al. 1984). A deficiência de Mn foi constatada raramente, mas  houve verificações de levados valores com risco de toxidez (Brum et al. 1987, Pott et al., 1987, 1989). E para o elemento ferro os níveis encontrados também foram elevados (Fichtner et al., 1987, Brum et al. 1987, Pott et al., 1987, 1989) (Tabela 1).

A suplementação mineral pode ser feita por métodos indiretos como uso de fertilizantes minerais, mudança de pH do solo e o estímulo do crescimento de determinadas espécies forrageiras. O aumento do pH do solo influencia a absorção de minerais pela planta provocando deficiências de Cu e Co e excesso de Se e Mo. A fertilização das pastagens aumenta a produção de matéria seca, além de aumentar os minerais nas forrageiras, entretanto está relacionada à forma química do elemento e tipo de solo, entre outros fatores. O método mais eficiente de fornecer minerais para bovinos é através de suplementos minerais combinados com concentrados, se assegura maior exatidão na quantidade a ser ingerida diariamente. Mas, para bovinos em pastejo nem sempre isto é possível, sendo mais utilizado para bovinos de leite ou através do uso de misturas múltiplas para gado de corte, que vem aumentado nos últimos anos, principalmente na época da seca.

Tabela 1 – Localização das deficiências minerais em bovinos e ovinos diagnosticadas no Brasil até 1998.

Estados

Minerais

Amapá

Mn, Co , Cu

Amazonas

P, Co, Cu

Bahia

P, Co, Zn

Espírito Santo

P, Co, Mn

Goiás

P,Cu, I, Zn, Fe­

Maranhão

P, Co, Cu, Zn

Mato Grosso

P, Co, Cu, Mn, I, Na, Se, Zn

Mato Grosso do Sul

P, I, Co, Se, Zn, Fe­, Mn­

Minas Gerais

P, Co, Cu, I, Zn

Pará

P, Co, Cu

Piuaí

P, Co, Cu, Mn, Zn

Rio Grande do Sul

P, Cu, Mn­, Se

Rio de Janeiro

P, Co, Cu, Mn, Zn

Roraima

P, Co, Zn, Se­

Santa Catarina

Co, Cu, Mn

São Paulo

P, Co, Se

Fonte: Tokarnia et al., 2000.

A administração direta de minerais pode ser feita por água, misturas minerais, blocos, dosificações orais, preparações ruminais e injeções. As dosagens orais asseguram quantidades específicas a intervalos conhecidos, mas é dependente de mão de obra e dependendo do tamanho do rebanho torna-se impraticável. Minerais como Cu e Se que podem ser estocados por mais tempo no fígado tem mostrado resultado satisfatório, mas o Co que necessita de suplementação semanal mostra-se inviável. As injeções intramusculares têm sido usadas para Cu, Se, I e Zn.

As preparações ruminais são baseadas em balas ou “pellets” que podem conter Co, Se ou Zn e ficam retidos no rúmen-retículo e são liberados de maneira lenta e constante. A maior desvantagem de fornecimento de um ou alguns minerais a animais sob pastejo em extensas áreas do mundo é que existem outros minerais como o P e Na que não podem ser fornecidos desta maneira, sendo assim a preferência de escolha é a suplementação é através de misturas de sal comum com fontes de Ca, P e microelementos.

O consumo de minerais à vontade é a maneira mais comum de oferecer  minerais aos bovinos sob pastejo. O sal comum é o veículo usado para dar palatabilidade à mistura mineral ao mesmo tempo que também funciona como regulador de consumo, normalmente sendo usado de 30 a 40% na mistura final.  Uma mistura mineral completa normalmente inclui o sal comum, uma fonte de P com baixo F, além de Ca, Co, Cu, I, Fe e Zn, entretanto em regiões tropicais de solos ácidos o Mn e o Fe podem ser eliminados da mistura. O S, K, Mg e Se de acordo com a necessidade específica.

A tabela 2 mostra o efeito da mistura mineral completa sobre os índices zootécnicos comparado ao uso de somente sal comum na dieta de bovinos. Segundo alguns pesquisadores brasileiros o uso de misturas minerais completas é um método anti-econômico, pois no Brasil deveriam ser suplementados somente o P, Co, Cu, I e Zn e como veículo o sal branco, sendo que em certas regiões não há necessidade de todos estes elementos. Além disto, na mistura mineral completa existe o risco das interferências antagonistas entre os minerais.

Tabela 2. Estudo colombiano de quatro anos avaliando o uso suplementos minerais comparados ao sal comum.

Ítem

Sal Comum

Mistura Mineral Completa

Abortos (%)

9,3

0,75

Nascimento / ano (%)

50,0

67,0

Mortalidade até a desmama (%)

22,6

10,5

Bezerros desmamados do total do rebanho (%)

38,4

60,0

Peso a desmama – 9 meses (kg)

117

147

Ganho de peso em 572 dias (kg)

86

147

Ganho médio diário (g)

150

247

Kg bezerro desmamado/vaca/ano

44,9

88,2

Fonte: McDowell, 1999.

Trabalho feito pela Embrapa, em 1983, mostrou que a suplementação de novilhos em pastagens de capim colonião, no Mato Grosso do Sul, durante 336 dias, com  NaCl (sal branco); NaCl +P+ micro; NaCl+P e mistura comercial, e encontraram ganho em peso de 40, 144, 68 e 130 kg respectivamente. O tratamento NaCl+P+micro obteve maior benefício líquido.  Resultados semelhantes foram encontrados por pesuisadores no Rio de Janeiro, em 2005, em pastagens de mombaça e elefante com a suplementação de minerais específicos (fósforo, cobre e colbalto) quando comparado a mistura mineral completa na recria de novilhas (Holandês x Zebu). Os ganhos médios não foram alterados obtendo menor custo de esuplementação.

A suplementação mineral  específica a pasto deverá ser utilizada com critério, conhecendo as deficiências minerais locais, o tipo de solo e de pastagem, histórico, exames clínicos e laboratorias, bem como a exigência nutricional da categoria a ser suplementada. Além disso, analisar a viabilidade econômica e a qualidade da mistura feita na propriedade. Algumas fábricas de suplementos nutricionais fazem formulações específicas, dependendo da quantidade a ser comprada, sendo uma alternativa a ser usada.

Características de um suplemento mineral a pasto recomendado para bovinos

  1. Não ter substancialmente uma relação de Ca:P maior que 2:1.

  2. Fornecer uma proporção significante (aproximadamente 50%) das exigências de minerais traços como Co, Cu, I, Mn, e Zn. Em regiões conhecidas como deficientes em minerais traços, deveriam ser fornecidos 100% de minerais traços específicos.

  3. Incluir minerais de alta qualidade que contenham as melhores formas biologicamente disponíveis, e evitar a inclusão mínima de sais minerais contendo  elementos tóxicos. Como um exemplo, deveriam ser evitados fosfatos que contenham alto teor de F, ou formular sais para que os animais em reprodução, recebessem não mais que 30-50 mg/kg de F na dieta total. Poderiam ser usados fertilizantes ou fosfatos não tratados, com algumas limitações para o gado confinado.

  4. Ser suficientemente palatável para permitir o consumo adequado em relação às exigências.

  5. Ser produzido por um fabricante idôneo com controle de qualidade, e garantias quanto aos valores de etiqueta.

  6. Ter um tamanho de partícula aceitável, permitindo uma mistura adequada, sem partículas muito pequenas que acabam sendo perdidas.

  7. Ser formulado para uma determinada área, nível de produtividade animal, ambiente (temperatura, umidade, etc.) na qual será utilizado, e ser tão econômico quanto possível.

Consumo dos suplementos minerais

A palatabilidade de um suplemento afeta o consumo mais do que a necessidade fisiológica. Ao formular-se uma mistura mineral, a estimativa das necessidades a ser atendida deve coincidir com o consumo adequado. O consumo médio da mistura mineral é altamente variado e dependente de vários fatores:

  • bovinos em pastagens de baixa qualidade ou  disponibilidade consomem mais minerais, que coincide também com a época seca do ano devido à maior quantidade de fibra, menor digestibilidade e  quantidade de proteína na forragem;

  •  suplementos protéicos e energéticos podem fornecer também minerais e diminuir  a necessidade e apetite dos animais quando oferecidos isoladamente, mas caso seja adicionado à mistura mineral funcionam como palatabilizante e aumentam o consumo da mistura total;

  • quanto maior o nível de produção maior a necessidade de minerais e maior o consumo da mistura mineral;

  • o sal comum funciona como palatabilizante devido ao apetite particular dos bovinos por este, entretanto é também regulador de consumo onde quanto maior a quantidade de sal comum no suplemento mineral menor será seu consumo;

  • quando os animais não têm acesso ao suplemento mineral por tempo prolongado podem consumir de duas a dez vezes mais minerais do que o esperado até que seu apetite esteja satisfeito;

  • o umedecimento e o empedramento diminuem  o consumo do suplemento mineral;

  • a localização do cocho de suplemento mineral próximo de aguada ou malhadouro permite o consumo regular do suplemento, pois o consumo é menor se os animais têm que andar longas distâncias.

O consumo das misturas minerais devem ser avaliados mensalmente nas propriedades, para assegurar que seu fornecimento esteja de acordo com o preconizado pela fórmula e evitar as deficiências sub-clínicas ou clínicas.

Cocho para os suplementos minerais

Os suplementos adequadamente formulados são capazes de produzir resultados benéficos somente quando estão à disposição permanente dos animais sob forma fresca e seca. O manejo da suplementação mineral através de uma rotina de inspeção semanal dos cochos para verificar a quantidade e aspecto da mistura tem sido negligenciado pela maioria dos pecuaristas e causando a “síndrome do cocho vazio” que acarreta sérios prejuízos na bovinocultura (Foto 1).

Foto 1 – Boa estrutura de cocho – “síndorme do cocho vazio”.

Fonte: Barbosa, 2002.

Aspectos ligados ao cocho como altura em relação ao solo para a categoria a ser suplementada, espaçamento linear, tipo de acesso (unilateral ou bilateral), proteção contra chuvas, localização influenciam o consumo e por sua vez afetam o desempenho dos animais.

O cocho deve ter 4 cm de espaço linear por animal para mistura mineral como suficiente, entretanto se for usado mistura múltipla (mineral com uréia, farelos e/ou grãos), esta medida pode chegar a 20 cm linear por animal devido ao maior ingestão do suplemento e tempo de permanência no cocho. A altura em relação ao solo deverá ser de 50 cm para vacas de cria, para que os bezerros tenham acesso ao suplemento, 60 a 70 para recria e 100 cm para engorda. A profundidade de 20 – 30  cm, a largura superior de 40 – 50 cm e inferior de 30 – 40 cm.

Foto 2 – Tipo de cocho com barril de plástico, descoberto, inadequado para suplementos minerais.

Fonte: Rocha, 2001.

A localização do cocho deve ser de fácil acesso para o animal e para a pessoa responsável pelo abastecimento e  em local seco. Cochos localizados em áreas próximas ao bebedouro cerca de 300 metros de distância, malhadouro ou sombreada,  são  usados com maior freqüência pelos animais.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CARVALHO, F.A.N.; BARBOSA, F.A.; McDOWELL, L.R. Nutrição de bovinos a pasto. Belo Horizonte: Papelform, 2003. 438p.

DOMINGUES, F.N., SILVA, F.C., SOUZA P.M. et al. Comparação entre os custos de dois tipos de suplemento mineral na recria de novilhas. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 41, 2005, Goiânia. Anais… Goiânia: SBZ, 2005. CD-ROM.

McDOWELL, L.R. Minerais para ruminanes sob pastejo em regiões tropicais, enfatizando o Brasil. 3., ed. Gainesville: University Press, 1999.

McDOWELL, L. R. Nutrition o grazing ruminants in warn climates. Academic Press London. 1985.

McDOWELL, L. R. The role of a complete mineral supplement on reproduction world animal production. p. 213-233, 1990.

McDOWELL, L.R. Minerals in animal and human nutrition. Gainsville: Academic Press.85 p, 1992.

TOKARNIA, C.H., DÖBEREINER, J. PEIXOTO, P.V. Deficiências minerais em animais de fazenda, principalmente bovinos. Pesq. Vet. Bras., v.20, n.3, p.127-138, 2000.

VIANA, J.A.C. Complementação e suplementação de bovinos em pastagem no Brasil. In: SEMANA DE ZOOECNIA, 2, 1997, Pirassununga, Anais … Pirassununga: USP, 1977, p. 1-26.

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