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“CREEP-FEEDING” – UMA ALTERNATIVA DE SUPLEMENTAÇÃO PARA BEZERROS.

by Gushiken on 06/07/2011

Em um sistema de produção de bovinos de corte, a taxa de desmama e a quantidade de kg de bezerro desmamado/vaca/ano influenciam diretamente a eficiência do processo de criação. Quanto mais pesado desmamar este bezerro, menor será seu tempo de abate, reduzindo seu custo de permanência na propriedade, ou maior será seu valor de venda.

A produção de leite nas vacas é um fator importante na bovinocultura a pasto, pois a maior parte dos nutrientes, na fase inicial de vida do bezerro, provém do leite materno. As vacas Nelore atingem seu pico de produção máximo nos primeiros 30 dias de lactação, com 4,7 litros de leite/dia, permanecendo estável até os 90 dias. Daí em diante, ocorre um declínio até a média de 2,7 l/dia aos 5 meses de lactação. Segundo pesquisadores, aproximadamente 60 a 66% da variação do peso à desmama pode ser atribuída ao efeito direto do leite materno. Esta quantidade de leite produzida é influenciada pela genética do animal, pela qualidade e quantidade de pastagem, e pela suplementação.

Tabela 1 – Necessidade nutricional do bezerro, em Mcal de Energia Digestível/dia.

Idade (meses)

Necessidade Total

Suprida leite (%)

Déficit

1

3,28

100

2

5,12

70

1,54

3

6,93

63

2,56

4

8,08

44

4,52

5

8,98

36

5,75

6

11,86

27

8,66

Fonte: Silva, 2000.

Como mostrado na tabela acima, a partir do segundo mês de vida do bezerro, o leite não supre totalmente a energia para que este animal possa expressar todo o seu potencial genético e desmamar com peso elevado.

Uma das formas de aumentar o ganho de peso à desmama é através do creep-feeding, isto é, a utilização de um cocho privativo, dentro de um cercado, ao qual só o bezerro tem acesso. Estando o bezerro, ainda mamando, recebe um reforço alimentar com uma ração concentrada balanceada. O consumo desta ração pode ser controlado mediante fornecimento em conjunto com o sal mineral. Recomenda-se fornecer entre 0,5 a 1,0% do peso vivo de concentrado/cabeça/dia, ficando a ração com 75 a 80% de NDT e 16 a 20% de PB.


Esquema de creep-feeding, para 50 bezerros.


Foto 1 – Tipo de creep-feeding para suplementação dos bezerros. Rocha, 2001.

Note que o creep-feeding acima está muito bem feito, mas os espaço entre o cocho e as réguas de madeira devem ser maiores (3 metros), além disso, a altura da régua de madeira está alta que pode permitir a entrada das vacas no creep.

Os fatores que afetam as respostas no creep-feeding são:

  1. A quantidade e qualidade do pasto.

  2. A produção de leite das mães.

  3. O potencial de crescimento, idade e sexo dos bezerros.

  4. Tempo de administração, o consumo e tipo de suplemento.

Tabela 2 – Efeito do creep-feeding no desempenho de bezerros.

Peso à desmama (kg)

Fonte

Raça

Consumo kg/dia

Suplemento

Creep

Sem Creep

Pacola et al. 1977

Guzerá

1,157

14% PB, 80% NDT

171,6

144,8

Cunha et al. 1983

Sta. Gertrudis

1,3

17% PB, 82% NDT

180

139,5

Pacola et al. 1989

Nelore

0,328

15% PB, 80% NDT

193,8

180,8

Holloway & Totusek, 1973

Angus e Hereford

226

206,5

Tarr et al. 1994

Angus e Hereford

3,4

12,4 % PB

235,4

199,8

Sancevero, 2000

Simental x Nelore

250

208

Nogueira, E. 2001

Nelore

0,61

20% PB, 75% NDT

163,80

155,1

Sampaio et al. 2001

Canchim

0,595

16% PB 216

207,9

Siqueira at al. 2001

Nelore-Limousin, Nelore-BelgianBlue

0,718

16%PB 174

148,9

Benedetti et al. 2002.

Simental x Nelore, Angus Nelore

1,4

19% PB, 75% NDT

256,73

224,40

Fonte: Adaptado Silva, 2000; Paulino et al. 2002.

Como mostrado na tabela acima, o aumento no ganho de peso varia de 8 a 42 kg por bezerro, e parece que quanto menor é o nível nutricional, maior é a resposta para a diferença de ganho de peso, em termos percentuais.

Outro fator a ser considerado no sistema de creep-feeding é a relação mãe-cria, com efeitos positivos na condição corporal da vaca, possibilidade de retorno ao cio, mais rápido, e aumento da taxa de prenhez.
Nos bovinos, o retorno da atividade ovariana pós-parto tem como fator limitante o efeito inibitório da amamentação na liberação do GnRH, que desencadeará todo o processo de cio e ovulação, através do LH, o hormônio responsável pela ovulação. Esta inibição é a conseqüência da relação comportamental do bezerro com a vaca. Estas vacas possuem falhas na retomada da liberação de LH, e os folículos pré-ovulatórios não se desenvolvem totalmente.

As pesquisas mostram o envolvimento de opiódes endógenos (encefalinas, endorfinas e dinorfinas) na supressão do LH, devido à relação mãe-cria e ao reflexo de mamada. Vacas em dietas com baixos níveis energéticos apresentam maiores concentrações destes opióides endógenos, que contribuem para o anestro lactacional.

O creep-feeding ajuda a tornar o bezerro menos dependente da mãe, diminuindo o número de mamadas e minimizando os fatores acima citados, contribuindo, então, para melhora da condição corporal da vaca e possível retorno ao cio, mais rápido.

Tabela 3 – Resposta à utilização do “creep-feeding”, no peso ao desmame e na fertilidade de matrizes.

Peso dos bezerros (kg)

Idade à desmama

No.Animais

sem creep

Com creep

Aumento %

5 meses

100

170

190

11,8

7 meses

100

200

245

22,5

Fertilidade das Matrizes Nelore

400

77,0

84,5

9,7

Fonte: Silveira A. C. et al. 2001

A tabela acima mostra a desmama de bezerros Simental x Nelore, evidenciando um aumento de 11,8% a 22,5% nos pesos de desmama, aos 5 e 7 meses, respectivamente. O emprego do “creep-feeding” possibilitou, ainda, um benefício de 9,7% na fertilidade de matrizes Nelore.

Outra alternativa de suplementação de bezerros é o sistema Creep-grazing, isto é, uma área de pasto de alta qualidade nutricional de acesso exclusivo para os bezerros, ou então em sistemas de pastejo rotativo, onde os bezerros entram sempre no piquete antes das vacas.

As gramíneas e/ou leguminosas de escolha para este sistema deverão ser de alta qualidade nutricional, tenras, altamente palatáveis, de porte mediano, e o uso deve ocorrer no ponto ideal, com o máximo de energia, proteína e digestibilidade. Podem ser usadas gramíneas como: Panicum maximum, Cynodon dactylon – coast cross, tifton, florakirk; Brachiaria brizantha, milheto, sorgo forrageiro, entre outras.

 

*Fabiano Alvim Barbosa
Médico Veterinário, M.Sc. – Nutrição Animal
Doutorando em Produção Animal  – Escola de Veterinária- UFMG
fabianoalvim@unb.br

*Parte integrante do Livro “Nutrição de Bovinos a Pasto” – Fernando A. N. Carvalho, Fabiano Alvim Barbosa, Lee Russell McDowell, 2003.

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